quarta-feira, 18 de maio de 2011

Passei minha vida toda estudando em colégios particulares, os melhores da cidade, e tive uma certa dificuldade pra entrar  numa universidade pública. Como querem, então, que os jovens jogados às margens sociais tenham motivações pra continuar indo à escola? Oferecendo um prato de comida podre na hora do intervalo? Eu estou cansado de ser tratado como retardado, imagino, então, como eles se sentem. Comecei meu curso superior achando que haveria possibilidades pra todo lado pra eu poder mudar meu país. O caralho. Houve uma, e só essa, ainda muito precária. Faço parte de um grupo estudantil que reinvidica alguns direitos como o aumento da passagem de ônibus. Dois reais é um estupro bancário. "ah, não acho que esteja caro. meu lanche no colégio é três e cinquenta". Acontece, seu filho da puta, que seu paizinho ganha dez, onze salários mínimos. Se ele ganhasse um salário mínimo, dúvido que tu teria coragem de abrir a boca e vir me dizer uma merda dessa. Ou melhor, duvido sim, porque metade das pessoas que lerão isso, não saberão me dizer, com certeza, quanto é o salário mínimo brasileiro e o quanto ele deveria ser. Não falo isso porque meus pais recebem salário mínimo, longe dessa realidade. Eu falo isso porque não sou eu que formo a grande massa nacional. São os heróis de todos os dias. Sim, os heróis, mas não aqueles da televisão, herói não é o último cara que ganhou o BBB, tenho pena de quem pensa isso, sinceramente. Herói é aquele menino que vai pra aula descalço, porque o pai não tem dinheiro pra comprar uma sandália, vai andando porque não tem dinheiro pra passagem do ônibus todo dia, chega na escola e não tem aula, porque os professores tão em greve - culpa desse maldito governo, que sempre dá um jeito de parecer que é culpa da classe trabalhadora - , mesmo se tivesse aula, assistiria em pé, porque não tem onde sentar, não tem cadeira e, se tivesse, não anotaria nada. Não tem caderno. Enquanto vocês me leem através do computador, no conforto de suas casas e tudo o mais, os heróis nacionais estão aí, marginalizados, sofrendo preconceito, assaltando, matando e morrendo. Não defendo o roubo! - acho necessário detalhar essa parte, já que a minha geração não lê, é capaz de sequer entenderem a verdadeira face dessa crítica. Apenas digo que, por esse lado, há uma 'explicação' plausível pro ato. O contrário do que acontece no senado, onde todos vestem ternos caros, são alfabetizados, não têm piercings nem tatuagens, e roubam milhões, trilhões. Os valores estão tão invertidos que o trabalhador que vive com menos de 600 reais por dia é o filho da puta da história, o 'peso social'. Enquanto vossa senhoria disfruta do dinheiro suado que é contrabandiado dos nossos impostos, colocando-os no bolso, enquanto as pessoas vão no BBB pra ganhar trocentos reais e são os heróis, enquanto a minha juventude pensa cada vez mais no que vestir e no que ter, do que em ser algo. Eu tenho vergonha.

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