terça-feira, 1 de março de 2011

O patriarca põe a senhora no colo, coisa rara pro momento e pra época. Pensa na prole. Confessa 1929 não ter sido o melhor, mas pede pra que tenha calma, que 1931 há de corresponder às promessas. Aquelas que nenhum dos dois seguia devido à economia. A vida toda é uma farsa. Mas ele sobreviveu à onda de suicídios, o que mais poderia provar à aliança que trazia no dedo? Ele sobrevivera. A enorme casa havia ficado pequena diante de tanto medo e lágrima. A cartola, seu retrato mais bem caracterizado de sua vaidade, encontrava-se amassada ao lado do cinzeiro sujo de bitucas e restos de fumo. Acabara com a carteira toda no dia. O veneno mata, por isso acalma o sangue que pede por morte. Seu novo vício que o mantinha sublime era a demonstração disfarçada de seu desespero. A senhora saiu do colo. Mentira: ela já estava na sala, sentada na cadeira, na outra sala, tecendo seus inúteis e inacabáveis pedaços de panos como toda boa cadela deveria fazer. Eu só esqueci de mencionar. Ele tentou tragar, não tinha cigarro. Meteu a mão no bolso, a carteira, vazia. Olhou a janela aberta do décimo primeiro andar do prédio ao sul da cidade. Pensou em quão fodido estava quando notou que sequer possuía cigarros. Ele não tinha cigarros. Pensou na prole. Viu a senhora. Cruzou as pernas e pôs a mão esquerda no queixo. Descruzou as pernas, abotoou o paletó, andou calmamente em direção à janela e se jogou. Olhou a senhora sumindo, cada vez mais longe na sala cada vez mais longe, longe da janela cada vez mais longe. Pensou na prole. Viu o céu.

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