terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Doença.

Não há um ser sequer que traga a porra do prefixo que permaneça incólume às garras da irresponsabilidade. Simplesmente, não há. Nem haverá, e não será em mim que a história mudará seu curso, num corpo frágil de um verme megalomaníaco. Sou apenas carbono, nada além que informações percorrendo meus sistemas e sangue. A consciência é uma coincidência, apenas. Nada mais que organismos simples numa rocha qualquer. Líquens, somente maiores e tão depentende quantos da simbiose. Mas nos caracterizaríamos melhor na qualidade de 'vírus' que, por definição, não vive fora de uma célula, desperta apenas pra abusar do material genético da vítima e, quando o faz, vai embora. Assim caminha a humanidade. Ou, 'Assim caminha o humanismo'. Destruído tudo ao redor e movendo-se à frente, ao próximo alvo. Tenho pena do planeta seguinte.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

entre sete e oito.

Por muita vezes eu usei a imagem da mãe que tem o filho terminal nos braços. Construí imagens como essa pra causar um certo choque em quem lia. Mas, hoje, venho trazer uma variação dessa. Pegai o primeiro ser e ponha no lugar do segundo e o segundo, pegai e punhai no lugar do primeiro, tendo, assim, após a equação, o filho que segura a mãe. É quase isso. A apresentação está findada, agora, a história.
Porta, passos, esquerda, passos, direita, passos, pia, passos, elevador, passos pra lá, passos pra cá, passos pra lá, pergunta. Então, a vi. Dormia. Pálida, estranhamente quieta. Eu, fruto da sua inquietância, a vi parada, naquele estado, e diminuí a velocidade. O quarto branco com umas luzes no teto me fizeram lembrar da teoria do quarto branco. Então, minha mão encontrou o alvo, frio.
- Oi, mãe.
- Oi, filho.
E a conversa prosseguiu, até que a bexiga mandasse o sinal de existência. Ela não pode levantar-se só. Ela não pode levantar-se só. Complicado é ver quem um dia te segurou e fez surgir estrelas nas tuas costas, teu apoio, precisar de tua mão pra sair da horizontal e encontrar a vertical. Complicado é deixar de ser criança e saber que a criptonita dos teus pais é algo extremamente banal, chamado tempo. Daí, chorei. Calado, pra dentro, escondido por trás dos locais onde havia sombra no quarto, encostado na cama, enquanto o banheiro era utilizado. E nada eu podia fazer. Chorei. Silenciosamente, decorei cada canto daquele cômodo e me ofereci pra atravessar a noite, não deixá-la só. Claro, como toda mãe, não aprovou.
- Trago algum saramago ou um vinicius.
- E onde tu dormirias?
- Quem já dormiu na carteira do colégio acha a poltrona do hospital um oásis.
- Não.
Olhei-a, tentando, dificilmente, segurar o choro. Sou câncer. Ainda segurava sua mão, ainda gelada mão. Ela reclamou da luz outrora sido ligada, apaguei-a.
- Tem certeza?
- Tenho.
Beijei o rosto da criança sendo eu o adulto daquele momento. 'eu te amo', sussurrei. Amo demais. E saí.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Então a vi passar. Eu, no sedentarismo medieval e ela fazendo o que todo nordestino faz de melhor: aguenta o sol. Pés descalços, negros de lama, negros no negro do asfalto, contrastado com o céu de nuvens densas. Mas Vitória continuaria a andar, mesmo sem rumo, mesmo sem norte. Ela andaria, sabia que ficar parada era se entregar numa bandeja de prata nas mãos da Morte, que, na visão dos burgueses filhos da puta, seria denominado 'limpeza social'. Havia tanta sede naquele ser desgraçado que sua língua saltava pra fora como um cachorro qualquer, o que ela quase não deixava de ser. Afinal, é sobre isso que veio falar, sobre a animalização. Pura ironia. E eu amo essa ironia que deixa inquietos alguns mais sensíveis. Mas eu gostaria de deixá-los incomodados mesmo como a sede que vem te bater à porta qualquer hora do dia. 'Porta', claro, porque casa de cachorro não tem porta. Eu no conforto do automóvel e ela na moléstia do tempo. Sofria as intempéries com a maior naturalidade que seu instinto poderia ultrapassá-los. Enquanto eu me via perdido, sem saber pra onde ir, simplesmente por não saber qual profissão seguir. Mantinha minhas dúvidas e as fazia serem o drama de um filme, enquanto Vitória supera os terrores físicos com uma naturalidade surpreendente. Não era nenhuma seca de 15, mas vai tu se postar sobre o asfalto ardente no sol que fode o Ceará às 12. Queria ver tu caminhar com a leveza que ela atravessava a rua, sem nenhum momento de desespero. Então, pensei. E pensei. Nada fiz, só pensei. O sinal abriu enquanto o ato me era feito e o carro andou. Passaram-se algumas vitrines coloridas, escritas 'venham, queimem seu dinheiro com a mais nova futilidade inventada pra te tornar mais dependente'. Preferi olhar pra palavra 'promoção' do que ficar a me humanizar com aquela indigente.
- Humanizar? Eu realmente falei isso? Desculpe-me, mente, queria ter dito humanismo. A doença é melhor que a praga que eu sustento com meus impostos.
Comprei tudo que eu não precisava e voltei a conversar com a imaginação.
- Sobre o que falávamos mesmo?

sábado, 11 de dezembro de 2010

- Lúcia.
- Prazer.
Mas o prazer maior foi eu perceber que ela não poderia ver o mundo como ele realmente se encontra. Ou poderia, não sei ao certo. A única certeza que tenho é de que ela não poderia senti-lo, vendo, ou não. Imagine o amor da sua vida, agora, imagine o amor da sua vida sendo estuprada. Num quarto branco. Uma luz amarela no teto. Um lençol manchado de sangue. E o amor da sua vida sendo vítima do estupro. É esse o mundo que Lúcia não poderia ver. Ou poderia, não sei ao certo. A única certeza que tenho é de que ela não poderia senti-lo, vendo, ou não. Ver. Um ponto de vista. É tudo sempre um ponto de vista. Uma tesoura na traquéia, matando aos poucos o desgraçado sem ar, antes que me fuja o exemplo, mas ainda sim, é tudo um ponto de vista. Assim como o estupro: feitiche doentio ou doentio feitiche. A linha entre o crime e o carnal é tênue. E a lucidez também. É o lençol manchado de sangue da sociedade. A vítima estuprada do humanismo.
- Eu morri.
A justiça é cega, não preciso de provas, não preciso de condenações, basta-me a realidade.
- O que?

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Quando a homenagem é um fardo vivido.

Vitória, eu te amo. Eu te amo. E te peço pra que não fiques a ter pena desse pai que apenas te escreveu e nunca vos teve.

(vide rita - rubem braga)
Eu já vivi tudo isso. Toda essa velocidade de corpos borrados, quase alcalinos, simplesmente, entropia. É uma bagunça. A vida se repete, falha, a cada esquina que ouso virar. Dos sorrisos aos olhares, até os telefones e números discados. Em algum lugar ficou uma parada, em algum lugar aparecerá uma parada e eu a tomarei. Nada de 'parem a vida, eu quero descer'. Isso, pra mim, é simplesmente um clichê gritante de quem não tem nada a dizer. A vida é uma constante estática. Completamente mutável, mas ela sempre estará lá. Assim como o tempo, o controle do caos, a desordem nomeada e domada por um titã, vencido apenas, uma única vez, por um deus. O que o passado exaltava, hoje eu vejo aprisionada entre as grades de metais brilhantes nos pulsos da humanidade. Que, por sinal, não passa de uma doença viral: humanismo, eu diria. Isso é a vida, essa sucessão de alegorias aleatórias e sem sentido, esse abismo que me separa do segundo que deixei pra trás e do segundo iminente. Eu nunca os poderia viver, quando pensar em aproveitá-los, já aconteceram ou ainda não aconteceram. Isso é a vida, essa loucura é a vida. Salvem seus relógios, que o dia anoiteceu e a noite é amanhã.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A pior parte do pós-perder alguém, é passar a dizer no passado findado o que nós éramos acostumados a falar no presente intermidado. 'Ele era meu melhor amigo'. Nada pior que aceitar a inevitabilidade da morte. Nada pior que passar dias e dias tentando encontrar uma prova de que tudo isso é mentira, que, em algum momento perdido na memória, haviam pistas que provavam que tudo era uma piada de péssimo gosto.
- Eles não morreram. A terra os engoliu, não há joelho que os traga de volta, mas eles não morreram.
- Ricardo, deixa-me. Vá embora, eu não preciso de mais motivo pra detestar isso que chamam de 'única certeza'.
Mas lá, continuam. Abaixo de um lençol de vermes, a apodrecerem e voltarem à natureza. A velha frase ganha o ciclo: do pó viemos e ao pó voltaremos.
Tudo é uma questão de insanidade.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Não há mais salvação.

Procuram-se os bandidos errados. Enquanto matam-se centenas e prendem milhares nas favelas espalhadas pelo país, os filhos da puta de terno e gravata, que roubam milhões, escapam ilesos. Corrupção pura. Os jovens que nascem favelados vão morrer favelados, e quem entra lá, o policial bonzinho da sociedade, é o vilão que matou o pai do melhor amigo nas indigências. Meu ovo. Os senhores do crime são os caras dos altos patamares, ricos, dinheiro sujo de sangue e de cocaína, exploradores e sucumbidores dos alicerceres desse Estado completamente falido. Claro, generalizações à parte. Mas e se a melhoria de vida de um favelado, jogado às margens da sociedade, escondido dos olhos das câmeras globais for somente pelo roubo? Ele vai roubar, ele vai arriscar a vida. O que ele tem a perder? Nada, ele não tem nada, não tem nada a perder. Pense no céu que agora deve te cobrir: nublado. Pra você, ótimo. Clima ameno numa cidade tão quente, perfeito pra dormir. Pra você, hipócrita. Pro que está na favela, é o medo vindo manifestando pelos céus: chuva, enchente no esgosto na frente da casa dele que está entupido há anos, doenças que se proliferam e vêm bater à porta pra levar embora os filhos, que não têm como se salvar porque a saúde pública também tá falida, é o sono interrompido à noite quando a cama começar a flutuar e ele acordar com a água no joelho. É o reflexo dessa linda história de quinhentos anos, quinhentos anos de frequesia. Enquanto houve condições, ninguém quis fazer porra nenhuma, agora os filhos dos nossos medos estão se levantando, após décadas sendo criados e massacrados na lama, os monstros sociais alcançam as vozes mais altas, eles têm os olhos do mundo. E nós? Temos a mão na frente da cara, como uma tentativa infantil de se cobrir com o lençol do monstro do armário. A diferença é que esse monstro é real, disposto a morrer, disposto a matar, disposto a obedecer ordens de tirar a tua mão da cara e te humilhar, como foram humilhados, enquanto eles quiserem. Grita, grita muito alto, corre pra longe. Em todo canto há uma favela com suicidas. Eles têm o ataque, nós, a defesa. E só pra não quebrar o ritmo desse país, a defesa, por sua vez, é falha. Acabar com o terror? Eles riem de nós, 'futuro da nação', nossa vala está cavada. A mão que tapava teus olhos agora suja de areia a tua vista. Coincidência? Nenhuma, tuas próprias mãos e tuas negligências, nossas negligências, foram o fermento dessa calamidade. Não se investe em educação, mal se dá 'bons dias', agora querem acabar de uma só vez com algo cultivado há anos? Nem a realidade que nos chega é completamente real, quanto mais fazer algo que queremos assim. Dante já avisou: Percam todas as esperanças. Estamos todos no Inferno. Só nos resta esperar por Virgílio, ou alguma Beatriz.