segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

entre sete e oito.

Por muita vezes eu usei a imagem da mãe que tem o filho terminal nos braços. Construí imagens como essa pra causar um certo choque em quem lia. Mas, hoje, venho trazer uma variação dessa. Pegai o primeiro ser e ponha no lugar do segundo e o segundo, pegai e punhai no lugar do primeiro, tendo, assim, após a equação, o filho que segura a mãe. É quase isso. A apresentação está findada, agora, a história.
Porta, passos, esquerda, passos, direita, passos, pia, passos, elevador, passos pra lá, passos pra cá, passos pra lá, pergunta. Então, a vi. Dormia. Pálida, estranhamente quieta. Eu, fruto da sua inquietância, a vi parada, naquele estado, e diminuí a velocidade. O quarto branco com umas luzes no teto me fizeram lembrar da teoria do quarto branco. Então, minha mão encontrou o alvo, frio.
- Oi, mãe.
- Oi, filho.
E a conversa prosseguiu, até que a bexiga mandasse o sinal de existência. Ela não pode levantar-se só. Ela não pode levantar-se só. Complicado é ver quem um dia te segurou e fez surgir estrelas nas tuas costas, teu apoio, precisar de tua mão pra sair da horizontal e encontrar a vertical. Complicado é deixar de ser criança e saber que a criptonita dos teus pais é algo extremamente banal, chamado tempo. Daí, chorei. Calado, pra dentro, escondido por trás dos locais onde havia sombra no quarto, encostado na cama, enquanto o banheiro era utilizado. E nada eu podia fazer. Chorei. Silenciosamente, decorei cada canto daquele cômodo e me ofereci pra atravessar a noite, não deixá-la só. Claro, como toda mãe, não aprovou.
- Trago algum saramago ou um vinicius.
- E onde tu dormirias?
- Quem já dormiu na carteira do colégio acha a poltrona do hospital um oásis.
- Não.
Olhei-a, tentando, dificilmente, segurar o choro. Sou câncer. Ainda segurava sua mão, ainda gelada mão. Ela reclamou da luz outrora sido ligada, apaguei-a.
- Tem certeza?
- Tenho.
Beijei o rosto da criança sendo eu o adulto daquele momento. 'eu te amo', sussurrei. Amo demais. E saí.

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