sábado, 11 de dezembro de 2010

- Lúcia.
- Prazer.
Mas o prazer maior foi eu perceber que ela não poderia ver o mundo como ele realmente se encontra. Ou poderia, não sei ao certo. A única certeza que tenho é de que ela não poderia senti-lo, vendo, ou não. Imagine o amor da sua vida, agora, imagine o amor da sua vida sendo estuprada. Num quarto branco. Uma luz amarela no teto. Um lençol manchado de sangue. E o amor da sua vida sendo vítima do estupro. É esse o mundo que Lúcia não poderia ver. Ou poderia, não sei ao certo. A única certeza que tenho é de que ela não poderia senti-lo, vendo, ou não. Ver. Um ponto de vista. É tudo sempre um ponto de vista. Uma tesoura na traquéia, matando aos poucos o desgraçado sem ar, antes que me fuja o exemplo, mas ainda sim, é tudo um ponto de vista. Assim como o estupro: feitiche doentio ou doentio feitiche. A linha entre o crime e o carnal é tênue. E a lucidez também. É o lençol manchado de sangue da sociedade. A vítima estuprada do humanismo.
- Eu morri.
A justiça é cega, não preciso de provas, não preciso de condenações, basta-me a realidade.
- O que?

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