Então a vi passar. Eu, no sedentarismo medieval e ela fazendo o que todo nordestino faz de melhor: aguenta o sol. Pés descalços, negros de lama, negros no negro do asfalto, contrastado com o céu de nuvens densas. Mas Vitória continuaria a andar, mesmo sem rumo, mesmo sem norte. Ela andaria, sabia que ficar parada era se entregar numa bandeja de prata nas mãos da Morte, que, na visão dos burgueses filhos da puta, seria denominado 'limpeza social'. Havia tanta sede naquele ser desgraçado que sua língua saltava pra fora como um cachorro qualquer, o que ela quase não deixava de ser. Afinal, é sobre isso que veio falar, sobre a animalização. Pura ironia. E eu amo essa ironia que deixa inquietos alguns mais sensíveis. Mas eu gostaria de deixá-los incomodados mesmo como a sede que vem te bater à porta qualquer hora do dia. 'Porta', claro, porque casa de cachorro não tem porta. Eu no conforto do automóvel e ela na moléstia do tempo. Sofria as intempéries com a maior naturalidade que seu instinto poderia ultrapassá-los. Enquanto eu me via perdido, sem saber pra onde ir, simplesmente por não saber qual profissão seguir. Mantinha minhas dúvidas e as fazia serem o drama de um filme, enquanto Vitória supera os terrores físicos com uma naturalidade surpreendente. Não era nenhuma seca de 15, mas vai tu se postar sobre o asfalto ardente no sol que fode o Ceará às 12. Queria ver tu caminhar com a leveza que ela atravessava a rua, sem nenhum momento de desespero. Então, pensei. E pensei. Nada fiz, só pensei. O sinal abriu enquanto o ato me era feito e o carro andou. Passaram-se algumas vitrines coloridas, escritas 'venham, queimem seu dinheiro com a mais nova futilidade inventada pra te tornar mais dependente'. Preferi olhar pra palavra 'promoção' do que ficar a me humanizar com aquela indigente.
- Humanizar? Eu realmente falei isso? Desculpe-me, mente, queria ter dito humanismo. A doença é melhor que a praga que eu sustento com meus impostos.
Comprei tudo que eu não precisava e voltei a conversar com a imaginação.
- Sobre o que falávamos mesmo?
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